Ademi Gomes

Só Deus é perfeito

Textos

Cântico das Coroas e das Cinzas/L
Cântico das Coroas e das Cinzas

Ergueu-se outrora, em solene claridade,
Um templo cuja glória aos céus subia;
Ali, entre incenso, ouro e eternidade,
A própria Luz na terra residia.

Um rei, ornado não só de poder,
Mas de saber mais raro que o tesouro,
Curvou-se humilde, suplicando ver
Sabedoria acima do ouro.

E Deus, que pesa o íntimo do ser,
Fê-lo senhor de paz e abundância;
Fluiu justiça como o amanhecer,
E a fé floresceu em doce constância.

Mas o tempo — escultor silencioso —
Gasta promessas, dispersa o fervor;
E o coração, outrora luminoso,
Entrega-se aos desvios do erro e da dor.

Altares frios mancharam os montes,
Nomes vãos ocuparam o Lugar;
E as vozes que outrora eram fontes
Aprenderam, por fim, a calar.

Contudo, a Voz que moldou o universo
Não cessou de ao pó conclamar:
“Se o povo contrito, em pranto disperso,
Minha face buscar, hei de escutar.”

Por breve instante brilhou a esperança:
Ídolos tombaram ao chão como pó,
E a antiga aliança, qual viva lembrança,
Fez pulsar novamente o que estava só.

Mas veio a noite de espada e gemido,
Veio o incêndio, a queda, o terror;
O templo sagrado, outrora erguido,
Rendeu-se às chamas da dor.

Jerusalém — coroa das nações —
Vestiu-se de cinza e exílio profundo;
Calou-se o salmo, cessaram canções,
E o povo vagueou sem lugar no mundo.

Todavia, promessas não morrem no tempo,
Nem Deus abandona o que um dia chamou;
Sob o pó frio do antigo templo
Uma semente invisível ficou.

E quando o silêncio parecia final,
Rasgando a noite surgiu nova voz:
“Levantai-vos, tornai do desterro fatal,
Reconstruí — ainda cuido de vós.”

Assim, das ruínas brotou nova aurora,
Não pela força de pedra ou muralha,
Mas pela mão que sustenta e restaura
O que o orgulho humano retalha.

Aprende, ó alma, na história sagrada:
A queda não é o derradeiro fim;
Pois toda vida por Deus visitada
Pode renascer — se voltar para Si.
Ademi Gomes
Enviado por Ademi Gomes em 18/02/2026
Alterado em 18/02/2026


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