

Cântico das Coroas e das Cinzas/L
Cântico das Coroas e das Cinzas
Ergueu-se outrora, em solene claridade, Um templo cuja glória aos céus subia; Ali, entre incenso, ouro e eternidade, A própria Luz na terra residia. Um rei, ornado não só de poder, Mas de saber mais raro que o tesouro, Curvou-se humilde, suplicando ver Sabedoria acima do ouro. E Deus, que pesa o íntimo do ser, Fê-lo senhor de paz e abundância; Fluiu justiça como o amanhecer, E a fé floresceu em doce constância. Mas o tempo — escultor silencioso — Gasta promessas, dispersa o fervor; E o coração, outrora luminoso, Entrega-se aos desvios do erro e da dor. Altares frios mancharam os montes, Nomes vãos ocuparam o Lugar; E as vozes que outrora eram fontes Aprenderam, por fim, a calar. Contudo, a Voz que moldou o universo Não cessou de ao pó conclamar: “Se o povo contrito, em pranto disperso, Minha face buscar, hei de escutar.” Por breve instante brilhou a esperança: Ídolos tombaram ao chão como pó, E a antiga aliança, qual viva lembrança, Fez pulsar novamente o que estava só. Mas veio a noite de espada e gemido, Veio o incêndio, a queda, o terror; O templo sagrado, outrora erguido, Rendeu-se às chamas da dor. Jerusalém — coroa das nações — Vestiu-se de cinza e exílio profundo; Calou-se o salmo, cessaram canções, E o povo vagueou sem lugar no mundo. Todavia, promessas não morrem no tempo, Nem Deus abandona o que um dia chamou; Sob o pó frio do antigo templo Uma semente invisível ficou. E quando o silêncio parecia final, Rasgando a noite surgiu nova voz: “Levantai-vos, tornai do desterro fatal, Reconstruí — ainda cuido de vós.” Assim, das ruínas brotou nova aurora, Não pela força de pedra ou muralha, Mas pela mão que sustenta e restaura O que o orgulho humano retalha. Aprende, ó alma, na história sagrada: A queda não é o derradeiro fim; Pois toda vida por Deus visitada Pode renascer — se voltar para Si.
Ademi Gomes
Enviado por Ademi Gomes em 18/02/2026
Alterado em 18/02/2026 Comentários
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