Ademi Gomes

Só Deus é perfeito

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Cap 02 - Ser Pai
Capítulo 2 — Ser Pai
Eu tinha minhas dúvidas na questão de ser pai.
Pois eu sendo um homem gay, sabia que, dentro do que eu conhecia até então, isso significaria me relacionar com uma mulher — casando ou não — e aquilo nunca foi o meu perfil.
Essa ideia me inquietava profundamente.
Não era apenas uma dúvida simples…
Era um conflito interno, constante, silencioso e doloroso.
Havia dias em que eu acordava bem, cheio de esperança.
Mas bastava ver uma cena simples — um pai segurando a mão de um filho na rua, uma mãe abraçando sua criança — que algo dentro de mim se apertava.
Era como se o meu coração dissesse:
“É isso que você quer… é isso que te falta.”
E então vinha a insegurança.
A pergunta que não calava:
“E se eu nunca conseguir?”
A desesperança, para mim, era muito dolorosa.
Porque não era sobre qualquer sonho…
Era o sonho.
O mais importante da minha vida.
Ser pai não era um desejo passageiro.
Era algo que me completava por dentro, mesmo sem ainda existir.
Era como se uma parte de mim estivesse guardada no futuro, esperando para nascer através de um filho.
Eu pensava, às vezes, no fim da vida…
E essa era a ideia que mais me assustava:
chegar lá na frente e perceber que não vivi isso.
Essa possibilidade me machucava em silêncio.
A vontade de ser pai era tão grande que eu tomei coragem e fui além dos meus próprios limites.
Conversei com duas amigas muito próximas e fiz a elas um pedido sincero, vindo do fundo do coração:
perguntei se elas aceitariam ser mães do meu filho.
Talvez, para elas, tenha sido um susto.
Mas para mim… era esperança.
As duas, quase da mesma forma, me olharam com surpresa e perguntaram:
— Mas como, se você não gosta de mulher?
Eu respirei fundo e respondi com toda simplicidade que eu tinha naquele momento:
— Podemos fazer inseminação artificial…
Na minha cabeça, aquilo parecia uma solução.
Um caminho possível.
Uma ponte entre o meu sonho e a realidade.
Mas a resposta das duas foi a mesma:
não.
Sem rodeios, sem abertura, sem possibilidade.
E, naquele instante, algo dentro de mim se quebrou.
Não foi um barulho alto.
Foi um silêncio profundo.
Eu respeitei a decisão delas, claro.
Mas não posso negar: aquilo me frustrou muito.
Mais do que eu imaginava.
Era como se eu tivesse batido em uma porta com toda a minha esperança…
e ela tivesse sido fechada devagar, diante dos meus olhos.
Voltei para casa diferente naquele dia.
Sentei, fiquei em silêncio…
olhando para um ponto fixo, mas na verdade olhando para dentro de mim.
E ali, pela primeira vez com tanta força, pensei:
“Talvez esse sonho não seja para mim…”
Mas o mais curioso…
é que o sonho não desistia de mim.
Ele continuava ali.
Nos detalhes mais simples da vida, ele aparecia.
No choro de um bebê.
No sorriso de uma criança.
No jeito que um pai carregava seu filho nos ombros.
Parecia que tudo ao meu redor me lembrava disso.
E, ao mesmo tempo que doía…
também me mantinha vivo.
Porque, no fundo, eu sabia:
aquele desejo não era vazio.
Era algo plantado.
Mesmo em meio à frustração, comecei a refletir melhor.
Talvez o problema não fosse o sonho…
mas o caminho que eu achava que precisava seguir.
Eu fui criado acreditando em um único modelo de família.
Mas a vida estava, aos poucos, me mostrando que existem outras formas de amar…
outras formas de construir…
outras formas de ser pai.
Essa ideia não veio de uma vez.
Ela foi nascendo devagar.
Como uma luz bem pequena no fim de um corredor escuro.
Comecei a ouvir histórias…
Histórias de adoção.
De pessoas que escolheram amar filhos que não vieram do sangue, mas vieram do coração.
De homens que criaram filhos sozinhos.
De famílias que começaram de formas inesperadas, mas que eram completas do mesmo jeito.
E aquilo mexeu comigo.
Algo dentro de mim reacendeu.
Não era uma chama forte como antes…
era mais frágil, mais cuidadosa…
mas era real.
Eu ainda tinha medo.
Ainda tinha dúvidas.
Ainda não sabia exatamente como tudo aconteceria.
Mas já não era mais desespero.
Era uma esperança diferente.
Mais madura.
Mais silenciosa.
Uma esperança que não gritava…
mas permanecia.
Foi então que comecei a entender algo importante:
Ser pai não está preso a uma única forma.
Não está limitado ao que as pessoas sempre disseram.
Ser pai é, antes de tudo…
amar.
E se eu tinha tanto amor dentro de mim…
então talvez o caminho ainda estivesse sendo preparado.
Talvez Deus não colocasse um sonho tão grande em um coração à toa.
Talvez o meu jeito de ser pai não seria comum…
mas seria verdadeiro.
E, pela primeira vez depois de tanta dor,
eu consegui fechar os olhos, respirar fundo…
e acreditar de novo.
Não no “como”…
mas no “vai acontecer”.
Porque, dentro de mim,
o sonho continuava vivo.
Ademi Gomes
Enviado por Ademi Gomes em 05/05/2026


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