

Capítulo 03 - Adoção
Capítulo 03 — Adoção
O sonho de ser pai nunca me abandonou. Ele não fazia barulho, não gritava, não exigia — mas permanecia. Era como uma chama acesa dentro do peito, dessas que o vento da vida até tenta apagar, mas não consegue. Com o passar dos anos, fui entendendo que, para mim, a paternidade não viria pelos caminhos mais comuns. E foi assim que a palavra adoção começou a ganhar espaço dentro de mim. No início, ela chegou tímida, quase como uma possibilidade distante. Mas, pouco a pouco, foi se tornando uma esperança… e também um desafio. Porque junto com esse sonho, vinha uma realidade dura. Diziam que adotar não era simples. Que existiam filas enormes. Que era preciso passar por entrevistas, avaliações psicológicas, visitas, análises da vida inteira. Diziam que, às vezes, famílias esperavam anos… e ainda assim não conseguiam. E eu pensava: Se para um casal já era difícil… para mim seria muito mais. Eu era um homem gay. Vivia um relacionamento com outro homem. E, embora dentro de mim existisse amor de sobra, eu sabia que o mundo lá fora nem sempre enxergava isso. Havia um peso invisível que eu carregava. Um medo que não vinha de mim, mas do julgamento dos outros. Eu me perguntava, em silêncio: — Será que eu teria o direito de ser pai? — Será que algum juiz olharia para mim e enxergaria mais do que a minha orientação? — Será que veriam o amor que eu tinha para dar? Essas perguntas não tinham resposta… E talvez fosse isso que mais doía. Meu parceiro, por outro lado, parecia mais leve diante disso tudo. Ele acreditava. Dizia que daria certo. Que o amor falaria mais alto. Mas eu… eu era mais cauteloso. Não porque eu duvidasse do amor. Mas porque eu conhecia o mundo. E assim, entre esperança e medo, o tempo ia passando. Os dias viravam meses. Os meses viravam anos. E o sonho, embora vivo, parecia sempre adiado. Foi então que a vida começou a me colocar diante de decisões inesperadas. Minha irmã, que morava em Fortaleza, às vezes me ligava. E, em sua voz, sempre havia uma mistura de urgência e carinho. — Meu irmão… uma amiga teve um bebê… ela não pode ficar com a criança… — Você que sempre quis ser pai… você não quer? Aquelas palavras mexiam profundamente comigo. Era como se o sonho que eu tanto desejava batesse à minha porta… sem aviso… sem preparo… sem roteiro. Mas, diante dessas oportunidades, algo dentro de mim travava. Não era falta de amor. Nunca foi. Era medo. Medo de não estar pronto. Medo de não conseguir dar conta. Medo de falhar com alguém tão pequeno e tão dependente. Eu pensava em tudo… Como seria minha rotina? Quem cuidaria da criança enquanto eu trabalhasse? Será que eu conseguiria ser pai e assumir todas as responsabilidades sozinho? Será que eu daria a essa criança a vida que ela merecia? E, no meio de tantas dúvidas, eu fazia o que parecia mais seguro… Eu dizia não. Mas cada “não” que eu dizia… não era leve. Era carregado de silêncio depois da ligação. De pensamentos que não me deixavam em paz. De imagens que insistiam em surgir na minha mente. Eu me imaginava segurando aquele bebê. Imaginava o cheiro de recém-nascido. Imaginava um pequeno braço envolvendo meu dedo. Imaginava uma voz, um dia, me chamando de pai. E então vinha um aperto no peito. Porque, no fundo, eu sabia: não era falta de oportunidade. Era o medo que me paralisava. A vida estava me oferecendo caminhos mais rápidos, mais diretos… Mas eu queria fazer tudo certo. Queria segurança. Queria garantias. Queria ter certeza de que aquela criança chegaria para ficar… para construir uma história… para nunca mais sentir abandono. Eu não queria apenas ser pai. Eu queria ser presença. Queria ser abrigo. Queria ser certeza na vida de alguém. E talvez, por querer tanto acertar… eu acabava adiando aquilo que mais desejava viver. Os anos passaram… E o sonho continuava ali. Mais maduro. Mais consciente. Mas ainda acompanhado de dúvidas. Até que, um dia, em meio a tantos pensamentos, uma verdade começou a nascer dentro de mim… Silenciosa… mas firme: Talvez eu nunca me sentisse totalmente pronto. Talvez não existisse o momento perfeito. Talvez o medo não fosse um sinal de fraqueza… mas a prova de que eu levava esse sonho a sério. E foi nesse entendimento que algo mudou. Eu ainda tinha medo. Ainda tinha dúvidas. Mas, pela primeira vez… Comecei a perceber que o amor que existia dentro de mim já era maior do que todos eles.
Ademi Gomes
Enviado por Ademi Gomes em 05/05/2026
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