

Capítulo 06 - Os Preparativos para a Viagem
Capítulo 06 – Os Preparativos para a Viagem
Havia, naquele momento, um silêncio diferente dentro de mim. Não era vazio… era espera. Uma espera que pulsava, que caminhava comigo, que sentava ao meu lado à mesa e dormia ao pé da minha cama. Pela primeira vez, a vida deixava de ser apenas o que eu vivia — e passava a ser o que estava prestes a chegar. Eu morava no Rio de Janeiro, com sua pressa, seus barulhos, seus dias corridos que quase não pedem licença. Mas, naquele instante, tudo parecia desacelerar. Porque, enquanto a cidade seguia no seu ritmo, o meu coração batia em outro tempo — o tempo de quem está prestes a se tornar pai. Para que tudo acontecesse da forma correta, era necessário que a criança viesse para o Rio. Mas nada era simples. Existia um caminho a ser percorrido antes, um caminho cheio de papéis, assinaturas, decisões… e, acima de tudo, coragem. A mãe da criança precisou ir até Fortaleza. Lá, ela registraria o menino em seu nome e, diante do juiz, autorizaria oficialmente a vinda dele. Era um passo essencial — não apenas burocrático, mas também emocional. Era, de certa forma, um gesto de entrega. Quem deu o nome a criança foi eu, Gabriel Vitor Luiza, sempre firme, sempre presente, assumiu a frente de tudo. Ela organizou documentos, acompanhou processos, enfrentou filas, conversou com quem fosse preciso. Era como se Deus tivesse colocado as pessoas certas no lugar certo, na hora exata. E eu… eu acompanhava tudo de longe. Não por falta de vontade. Mas por necessidade. Eu não queria ir buscá-lo. Não queria ter contato com a família biológica. Principalmente com a mãe. Não era desprezo. Era proteção. Proteção para mim, que já carregava um turbilhão de sentimentos. Proteção para a criança, que já começaria sua história cercada de mudanças. E, talvez, proteção também para aquela mãe, que, dentro das suas dores e limitações, já estava fazendo o que podia. Então decidimos: uma sobrinha faria essa viagem. Ela seria o elo. O braço que atravessaria a distância. O colo que traria o meu filho até mim. Tudo foi sendo combinado aos poucos, como quem costura um sonho com cuidado para não rasgar. Cada detalhe importava. Cada decisão precisava ser pensada. Eu comprei as passagens. Dela… e da criança. E naquele simples ato — clicar, confirmar, pagar — havia algo muito maior do que uma viagem. Ali, eu estava comprando o início de uma nova vida. A partir daquele momento, não havia mais volta. O sonho deixava de ser ideia… e ganhava data, hora e destino. Os dias que se seguiram foram estranhos. Eu continuava trabalhando, falando com as pessoas, cumprindo minhas responsabilidades… mas, por dentro, eu já não era o mesmo. Eu olhava para a minha casa e pensava: “Vai ter um choro aqui.” “Vai ter risada.” “Vai ter vida.” Comecei a reparar em coisas que antes não existiam para mim — o espaço, o silêncio, a ausência de um pequeno corpo ocupando aquele lugar. Era como se tudo estivesse esperando por ele. E eu também. À noite, antes de dormir, a mente não descansava. Eu imaginava o rosto. Imaginava o cheiro. Imaginava o momento do primeiro encontro. Será que ele choraria? Será que me aceitaria? Será que eu daria conta? Mas, no meio de tantas perguntas, havia uma certeza firme, quase sagrada: Eu já o amava. Amava sem ter visto. Sem ter tocado. Sem ter ouvido sua voz. Amava porque ele já era meu… não no papel, não na lei, mas no coração. Os preparativos para a viagem não eram apenas sobre documentos, passagens e combinações. Eram sobre transformação. Era a vida me preparando… ajustando meus passos… fortalecendo minha fé… porque, em breve, um menino atravessaria a distância — e, junto com ele, chegaria aquilo que eu esperei por toda uma vida: o começo da minha história como pai.
Ademi Gomes
Enviado por Ademi Gomes em 08/05/2026
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