Ademi Gomes

Só Deus é perfeito

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Capítulo 13 - Conhecendo a Mãe
Capítulo 13 — Conhecendo a Mãe
Eu não conhecia a mãe do Gabriel.
Nem ela, nem ninguém da família dela.
E, sendo sincero comigo mesmo, eu evitava esse encontro.
Talvez por medo… talvez por não saber que lugar aquilo ocuparia dentro de mim.
A vida, porém, tem um jeito próprio de conduzir os encontros —
e, naquele momento, ela escolheu um cenário de despedida.

Meu pai, já com noventa e sete anos, começou a adoecer.
A saúde foi se apagando devagar, como uma vela no fim da noite,
até que veio a internação…
e, depois de alguns dias, o silêncio pesado de um coma.
Todos os meus irmãos já tinham ido visitá-lo.
Menos eu.
Carregava comigo uma inquietação, um chamado urgente do coração.
Conversei com minha chefia, expliquei a situação
e pedi para adiantar alguns dias de férias.
Eles entenderam — e me deram esse tempo.
Viajei.

Cheguei em Itapipoca ainda de madrugada,
por volta das cinco da manhã.
O céu ainda estava escuro, mas já havia um leve sopro de luz no horizonte —
como se o dia hesitasse em nascer.
Fui direto para o hospital.
Com aquele meu jeitinho carioca, insistente e respeitoso,
consegui entrar para vê-lo.
Ali estava meu pai…
em silêncio, imóvel, distante de tudo —
e, ao mesmo tempo, tão presente dentro de mim.
Fiquei ao lado dele por uns vinte minutos.
Não houve palavras,
mas houve tudo: lembranças, gratidão, despedida.
Saí dali com o coração apertado.

Fui para a casa do meu irmão, na mesma cidade.
Mal tinha chegado, por volta das cinco e meia,
o telefone tocou.
Era minha irmã.
A voz dela já dizia tudo antes mesmo das palavras chegarem.
Meu pai havia partido.

O velório aconteceu em Amontada,
a cidade onde ele morava,
onde construiu sua história,
onde plantou raízes que hoje vivem em nós.
Entre lágrimas, abraços e silêncios,
nos despedimos.
Depois do enterro, já em casa,
me deitei em uma rede —
tentando descansar o corpo,
mas com a alma ainda em movimento.
Foi então que algo inesperado aconteceu.

Minha irmã Dione chegou com uma moça.
O olhar dela era sério, mas não pesado.
Havia algo ali… uma mistura de coragem e cuidado.
Dione falou:
— Meu irmão, essa amiga quer falar com você.
Eu respondi, sem imaginar o que viria:
— Pois não, pode falar.
E então veio a frase que me atravessou por dentro:
— Ela é a mãe do Gabriel.
Naquele instante…
eu gelei.
O tempo pareceu parar.
O ar ficou diferente.
Era como se dois mundos que sempre caminharam separados
finalmente se encontrassem.

Conversamos.
Sem tensão.
Sem acusações.
Apenas como duas pessoas ligadas por uma vida —
a vida do Gabriel.
Ela me perguntou se estava tudo bem.
Falou com simplicidade, com respeito.
Depois, me pediu uma foto dele.
Pedi à minha irmã que buscasse.
Ela trouxe.
Entreguei a foto.
A mãe do Gabriel olhou…
olhou com atenção…
com um silêncio que dizia muito.
Depois, me devolveu.
Não houve lágrimas, nem grandes gestos.
Mas havia ali um reconhecimento.
Uma aceitação silenciosa.

Foi naquele momento que conheci não só ela,
mas também a família por parte de mãe.
E, para minha surpresa,
tudo aconteceu com tranquilidade.
Sem conflitos.
Sem mágoas expostas.
Eles me agradeceram.
Agradeceram pela atitude que eu tive,
por ter acolhido, cuidado e assumido o Gabriel.
E disseram algo que ficou guardado em mim:
Que, a partir daquele momento,
eu fazia parte da família.

A vida tem dessas coisas.
No mesmo cenário em que me despedi do meu pai,
eu vivi um encontro que trouxe paz.
Entre a dor da perda
e a surpresa de um novo vínculo,
entendi que a vida nunca fecha uma porta
sem abrir, ainda que discretamente, outra.
E ali, naquela rede, naquela casa simples,
no meio do sertão que me formou…
eu percebi que o amor do Gabriel
tinha agora dois lados reconhecidos —
e um caminho mais leve para seguir.
Ademi Gomes
Enviado por Ademi Gomes em 13/05/2026


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