

Capítulo 14 - Adolescência
Capítulo 14 — Adolescência
Na realidade, durante a infância do Gabriel, devido ao meu trabalho, eu não fui muito presente em sua vida. Trabalhava demais e não tinha horário fixo, pois minha rotina era por escala. Tanto podia trabalhar durante o dia quanto durante a noite. Na maior parte do tempo, quem ficava com ele era o Duda, meu parceiro, a quem ele chama de avô, porque foi assim que o próprio Duda o ensinou a chamá-lo. Eu só passei a estar mais presente e integralmente ao lado dele a partir dos treze anos, quando me desliguei da empresa. Foi então que comecei a participar mais do seu crescimento e da sua rotina, mas sinto que talvez já fosse tarde demais. Quando era criança, Gabriel era mais carinhoso comigo. Às vezes, quando eu saía para o trabalho e ele ainda estava acordado, era um verdadeiro sacrifício. Assim que percebia que eu estava me arrumando, ele já entendia que eu iria sair para trabalhar e não saía de perto de mim. Para não sair atrasado, eu começava a me arrumar meia hora antes, só para ter mais alguns minutos ao lado dele. Quando finalmente eu conseguia sair, ele ficava na janela, chorando e dando tchau, até que eu desaparecesse de sua vista. Mesmo assim, naquela época ele era mais obediente, mais próximo e demonstrava muito carinho por mim. Porém, ao entrar na adolescência, muitas coisas começaram a mudar. Tornou-se um garoto mais rebelde, bagunceiro e pouco dedicado aos estudos. Então passei a cobrar dele mais responsabilidade. Insistia para que seguisse o caminho certo, estudasse e construísse um futuro digno, uma formação, porque eu sabia que não seria eterno e desejava vê-lo preparado para a vida. Talvez, na tentativa de corrigir os erros da minha ausência, eu tenha me tornado um pai mais rígido do que deveria. Muitas vezes, minhas cobranças eram apenas medo. Medo de vê-lo sofrer no futuro, medo de que lhe faltassem oportunidades, medo de que a vida fosse dura demais com ele. Ele nunca foi de conversar muito comigo. Sempre que tento me aproximar ou iniciar uma conversa, percebo que ele não demonstra vontade de se abrir. Isso dói, porque dentro de mim existe apenas o desejo de ser ouvido e compreendido como pai. Com o passar do tempo, ele também deixou de ser um filho carinhoso e passou a ser mais respondão. Já não queria mais tirar uma simples foto comigo, nem permitia que eu lhe desse um beijo… pequenos gestos de carinho que todo pai costuma ter com o filho e que fazem tanta falta ao coração. Acho que, quando comecei a ficar mais presente em sua vida, talvez já fosse tarde. A cabecinha dele já estava formada. Às vezes, fico olhando fotografias antigas da infância dele e lembro de quando segurava minha mão, me abraçava sem vergonha e fazia questão da minha presença. O tempo passou tão rápido que, em muitos momentos, sinto como se eu não tivesse percebido a infância dele escapar diante dos meus olhos. Muitas vezes, quando vejo um filho abraçando o pai, conversando com carinho ou demonstrando afeto, fico me perguntando por que o meu filho não consegue ser assim comigo. Isso me entristece profundamente, porque eu sonhei tanto em ser pai. Eu imaginava que a parte mais difícil seria cuidar de um bebê ou criar uma criança. Jamais pensei que a adolescência pudesse ser uma fase tão difícil e tão dolorosa para um pai. Mesmo diante da distância entre nós, nunca deixei de amá-lo. O amor de um pai permanece vivo até nos silêncios, nas preocupações escondidas e nas noites em que o coração fica apertado sem saber como se aproximar novamente. Se ele realmente soubesse o tamanho do amor que sinto por ele, talvez fosse um pouco mais carinhoso comigo. Talvez entendesse que, por trás das cobranças e das brigas, sempre existiu apenas um pai tentando acertar, mesmo sem saber exatamente como.
Ademi Gomes
Enviado por Ademi Gomes em 14/05/2026
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