Ademi Gomes

Só Deus é perfeito

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Capítulo 7 - Infância no Sertao
Capítulo 7 — Infância no Sertão
Desde criança, por volta dos meus nove anos, eu ainda não sabia o que era ser homossexual, mas ouvia muito as pessoas falarem de “homem baitola”. Mesmo assim, eu não entendia o que significava ser “baitola”, muito menos o que seria ser viado ou gay.
Uma criança que nasce no sertão, nos anos cinquenta, sem nenhum conhecimento da cultura do restante do mundo, não imaginava sentir desejos por homens ou mulheres. Ainda assim, para mim, o normal era homem namorar mulher.
A vida sexual de muitos meninos da minha idade, ou até mais velhos, era marcada por experiências com animais, algo infelizmente comum em algumas regiões do sertão naquela época.
Nesta época, eu jamais poderia expressar os meus sentimentos, até porque nem sabia exatamente o que sentia. Na minha realidade, ser “baitola” não fazia parte do entendimento que eu tinha da vida.
Naquela época, no sertão, quase ninguém falava sobre sentimentos, muito menos sobre orientação sexual. O que eu via ao meu redor eram homens tentando provar o tempo todo que eram “machos”, seguindo costumes antigos, duros e cheios de preconceitos. Eu cresci observando tudo em silêncio, guardando dentro de mim perguntas que nem eu mesmo sabia responder.
Mesmo sem entender direito o que acontecia comigo, eu percebia que era diferente dos outros meninos. Enquanto muitos falavam de namorar meninas ou demonstravam interesses que pareciam naturais para eles, eu me sentia confuso. Não era apenas desejo. Era uma admiração, uma vontade de estar perto, de criar amizade, de sentir carinho. Mas eu não tinha palavras para explicar aquilo.
Como criança, eu acreditava que aqueles pensamentos iriam desaparecer com o tempo. Achava que era apenas uma fase ou coisa da minha cabeça. Afinal, ninguém conversava sobre isso, ninguém explicava nada. O silêncio era tão grande que eu aprendi a esconder até de mim mesmo aquilo que sentia.
Mesmo vivendo em meio a tantas limitações, eu nunca me considerei uma pessoa errada. O que existia era medo da reação dos outros, medo do julgamento e, principalmente, medo de decepcionar as pessoas ao meu redor. Então fui aprendendo a viver calado, observando a vida passar enquanto tentava entender quem eu realmente era.
Com o passar dos anos, percebi que os sentimentos não desapareciam. Pelo contrário, cresciam junto comigo, silenciosos, mas verdadeiros. E foi justamente nesse silêncio que comecei, aos poucos, a descobrir a minha própria identidade.
Ademi Gomes
Enviado por Ademi Gomes em 24/05/2026


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