Ademi Gomes

Só Deus é perfeito

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Capítulo 8 - O Menino Diferente
Capítulo 8 — O Menino Diferente
O que eu mais via eram garotos mais velhos tendo relações sexuais com cabras, ovelhas, éguas e até mesmo com porcas. Eu apenas observava, sempre atento para ver se nenhum adulto aparecia.
Tudo aquilo, para mim, parecia normal. Inclusive, na comunidade onde eu morava, eu ajudava a cuidar dos animais e era o menor entre todos. Cresci vendo essas situações como algo comum naquele ambiente.
Porém, eu nunca tive vontade de fazer o mesmo. Não sei se era porque realmente não sentia desejo ou se era apenas vergonha.
Na minha adolescência, eu não pensava em ter relação com outros meninos, mas, sempre que eu olhava para algum deles, sentia algo diferente. Eu não tinha muita certeza do que era e nunca deixei transparecer os meus sentimentos.
Na minha cabeça, aquilo não era atração sexual, era algo difícil de explicar. Era mais como uma admiração silenciosa, uma vontade de estar perto, de conversar, de sentir a presença de alguém que despertava em mim um sentimento diferente dos outros meninos. Eu ainda era muito novo para compreender o que se passava dentro do meu coração. Não existiam informações, conversas abertas ou exemplos que me ajudassem a entender aqueles sentimentos.
No sertão, naquela época, quase ninguém falava sobre essas coisas. Quando falavam, era sempre com brincadeiras, preconceitos ou palavras pesadas. Por isso, eu guardava tudo dentro de mim. Observava, sentia, mas permanecia calado. Eu tentava agir como os outros meninos, acompanhar as conversas e esconder qualquer emoção que pudesse chamar atenção.
Mesmo sem entender direito, eu sabia que era diferente em alguns pensamentos e sentimentos. Não me via igual aos outros rapazes quando falavam das meninas, dos namoros ou dos sonhos de casar. Eu ouvia tudo em silêncio e ficava me perguntando por que comigo era diferente. Muitas vezes achei que aquilo fosse apenas uma fase da adolescência, algo que mudaria com o tempo. Mas os anos foram passando, e aqueles sentimentos continuavam vivos dentro de mim.
O mais difícil não era sentir. O mais difícil era não poder falar sobre o que eu sentia. Era carregar dúvidas sozinho, sem ninguém para orientar, sem coragem de perguntar e sem entender que existiam outras pessoas vivendo os mesmos conflitos. Eu crescia tentando compreender a mim mesmo, enquanto o mundo ao meu redor parecia exigir que todos fossem iguais.
Ademi Gomes
Enviado por Ademi Gomes em 24/05/2026


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