

Capítulo 9 - Sentimentos em Silêncio
Capítulo 9 — Sentimentos em Silêncio
Eu nunca deixei que os outros meninos percebessem, não por medo, pois eu não achava errado sentir aquilo, mas porque guardava tudo em segredo comigo mesmo. Acho que, por ainda ser criança, eu não entendia os meus próprios sentimentos. Só sei que eu era diferente dos outros meninos, pois não participava das mesmas brincadeiras que eles. Naquela época, a homossexualidade não era um assunto falado nas comunidades do interior, embora eu acredite que já fosse mais comentada nas cidades grandes. Mesmo sendo diferente das outras crianças, nunca me chamaram de “baitola”. Na realidade, eu também sentia algo pelas meninas, mas não tinha muita certeza do que realmente sentia. Talvez fosse carinho, admiração ou apenas a vontade de ser igual aos outros rapazes da minha idade, que falavam o tempo todo sobre namoro, casamento e sobre formar uma família. Eu tentava entender meus próprios pensamentos, mas tudo dentro de mim parecia confuso demais. Naquele tempo, falar sobre sentimentos não era algo comum, principalmente para um menino criado no sertão, onde o homem precisava demonstrar força, coragem e comportamento considerado “masculino”. Qualquer atitude diferente já era motivo de comentários e julgamentos. Por isso, aprendi desde cedo a guardar minhas emoções apenas para mim. Eu crescia observando os outros meninos e percebendo que eu não era igual a eles. Enquanto muitos sonhavam em conquistar garotas, eu me pegava admirando alguns rapazes de uma maneira que nem eu sabia explicar. Não era somente desejo. Era uma mistura de curiosidade, carinho, identificação e um sentimento profundo que eu não conseguia colocar em palavras. Mesmo assim, eu tentava acreditar que aquilo fosse apenas uma fase da adolescência. Pensava que, com o passar do tempo, tudo mudaria naturalmente. Mas os anos foram passando, e aqueles sentimentos continuavam vivos dentro de mim, cada vez mais fortes e mais difíceis de esconder. O mais difícil não era sentir. O mais difícil era não ter com quem conversar. Eu vivia em silêncio, carregando dúvidas que ninguém ao meu redor parecia capaz de compreender. Então, fui aprendendo a conviver comigo mesmo, escondendo meus medos atrás de um sorriso e tentando seguir a vida como se nada estivesse acontecendo dentro do meu coração.
Ademi Gomes
Enviado por Ademi Gomes em 24/05/2026
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