

Capítulo 12 - Ser Diferente em Silêncio
Capítulo 12 — Ser Diferente em Silêncio
Ser diferente dos outros não era fácil. Desde muito pequeno, eu sentia que existia algo em mim que não se encaixava no jeito esperado para um menino da roça. Naquele tempo, ninguém falava sobre sentimentos, identidade ou diferenças. Cada criança já nascia praticamente com um destino traçado: os meninos deveriam ser fortes, brincar de bola, correr no mato, subir em árvores e aprender cedo os serviços pesados. As meninas, por sua vez, eram ensinadas a cuidar da casa, brincar de boneca e ajudar as mães nas tarefas do dia a dia. E eu vivia bem no meio desse conflito silencioso. Eu tinha muita dificuldade em participar das brincadeiras dos meninos, como jogar futebol ou brincar com aqueles brinquedos típicos da época na roça. Até tentava me enturmar, porque queria ser aceito e não parecer estranho diante dos outros. Corria atrás da bola, observava os meninos brincando, ria junto deles, mas, no fundo, sentia que aquilo não fazia parte de mim da mesma forma que fazia para eles. Parecia que eu estava sempre representando um papel. O que realmente me fazia feliz era brincar de casinha, criar bonecas de barro e inventar histórias no meio do terreiro. Eu gostava de imaginar famílias, conversar durante as brincadeiras e criar pequenos mundos dentro da minha cabeça. Também adorava brincar de esconde-esconde, porque naquela brincadeira todos eram iguais por alguns instantes, sem cobranças, sem julgamento e sem a obrigação de agir de determinada maneira. As bonecas de barro eram feitas com muito carinho. Eu modelava cada detalhe com as próprias mãos, como se estivesse criando companhias para um mundo onde eu me sentia sozinho muitas vezes. Talvez, sem perceber, eu já procurasse naquele universo infantil um lugar seguro para ser quem eu era por dentro. Mas naquela época, um menino não podia demonstrar certos gostos sem correr o risco de virar motivo de comentários ou piadas. Mesmo sendo ainda criança, eu já percebia os olhares, as brincadeiras maldosas e os cochichos dos adultos e dos outros meninos. Muitas vezes eu não entendia completamente o significado das palavras, mas sentia o peso delas. Então eu aprendi cedo a esconder partes de mim. Mesmo gostando mais das brincadeiras das meninas, eu fazia questão de estar sempre junto dos meninos. Talvez porque eu desejasse ser aceito por eles. Talvez porque eu tivesse medo de me sentir completamente diferente. Ou talvez porque, no fundo, eu ainda tentasse entender quem eu realmente era. Eu observava tudo em silêncio. Via como os outros meninos falavam das meninas, das futuras namoradas e do sonho de casar e formar família. Eu escutava aquelas conversas, mas dentro de mim os sentimentos eram diferentes. Não era algo que eu soubesse explicar naquela idade. Eu apenas sentia que meu coração caminhava por outro lugar, embora minha mente ainda não compreendesse aquilo. Ainda assim, eu nunca demonstrava a minha verdadeira identidade. Naquele sertão simples e cheio de costumes antigos, mostrar qualquer sinal de diferença podia trazer sofrimento. Então eu me fechava dentro de mim mesmo. Guardava meus pensamentos, minhas dúvidas e meus sentimentos no mais profundo silêncio. E assim fui crescendo: tentando ser igual aos outros por fora, enquanto por dentro existia um menino sensível, observador e diferente, aprendendo sozinho a sobreviver em um mundo que ainda não estava preparado para compreender pessoas como eu. Muitas vezes, eu me perguntava por que era tão diferente dos outros meninos. Enquanto eles falavam de namorar garotas, casar e formar família, eu guardava meus pensamentos em silêncio, tentando entender sentimentos que nem eu mesmo sabia explicar. Não era algo ligado apenas ao desejo, mas a uma forma diferente de enxergar as pessoas, de sentir carinho, admiração e afeto. Naquele tempo, no interior, quase não existiam conversas sobre homossexualidade. Tudo era cercado de preconceitos, piadas e palavras duras. Por isso, aprendi desde cedo a esconder minhas emoções, observando mais do que falando. Eu sorria, brincava e convivia normalmente com todos, mas carregava dentro de mim um segredo que nem eu compreendia totalmente. Com o passar dos anos, fui percebendo que não havia nada de errado comigo. O problema não estava em sentir diferente, mas na dificuldade que a sociedade tinha em aceitar aquilo que fugia dos padrões. Durante muito tempo, tentei acreditar que aqueles sentimentos desapareceriam, mas eles cresciam silenciosamente junto comigo, mostrando que faziam parte da minha essência. Mesmo sem entender completamente quem eu era, uma coisa eu sabia: eu não era uma pessoa ruim. Continuava sendo um menino respeitador, sonhador, amigo e cheio de sentimentos verdadeiros. Aos poucos, fui aprendendo que a maior luta não era contra o mundo, mas contra o medo de aceitar a mim mesmo. E talvez tenha sido justamente essa caminhada silenciosa que me tornou mais humano, mais sensível e mais forte. Porque sobreviver escondendo emoções exige coragem. E continuar acreditando no amor, mesmo em meio ao preconceito e à solidão, também é uma forma de resistência.
Ademi Gomes
Enviado por Ademi Gomes em 25/05/2026
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