Ademi Gomes

Só Deus é perfeito

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Capítulo 13 - Descobrindo os Meus Sentimentos
Capítulo 13 — Descobrindo os Meus Sentimentos
Com quatorze anos, já morando em Fortaleza, comecei a ter mais informações sobre o homossexualismo. Foi nessa fase que ouvi pela primeira vez a palavra “gay” e comecei a entender um pouco melhor os meus sentimentos. Mesmo assim, eu continuava sem expor o meu jeito de ser. Guardava tudo dentro de mim, tentando compreender sozinho aquilo que sentia desde criança.
Eu sempre fui um adolescente muito reservado. Tinha meus conhecimentos, observava as pessoas, conversava quando precisava, mas nunca fui de andar em grupos ou participar de rodinhas de conversa. Na maioria das vezes, preferia ficar sozinho, pensando na vida e tentando encontrar respostas para as dúvidas que carregava dentro de mim.
Naquela época, eu frequentava muito os cinemas, inclusive os chamados “cinemas de pegação”, além de algumas praças onde homens se encontravam em busca de parceiros, companhia ou até mesmo um relacionamento passageiro. Mas, para mim, tudo ainda era muito confuso. Eu mesmo não sabia exatamente o que procurava. Às vezes achava que buscava apenas uma satisfação sexual; em outros momentos, sentia falta de companhia, carinho ou de alguém para dividir a vida.
Mesmo vivendo todos aqueles conflitos internos, cheguei até a me interessar por duas garotas que eram minhas amigas. Tentei entender se aquele poderia ser o caminho da minha vida, mas nada aconteceu. No fundo, eu percebia que os meus sentimentos eram diferentes, embora ainda tivesse dificuldade para aceitá-los completamente.
Aos dezenove anos, já morando no Rio de Janeiro, a minha saga continuou. Passei a frequentar lugares parecidos com os que conhecia em Fortaleza. Continuava tentando entender a mim mesmo, procurando respostas para os meus desejos, para a minha solidão e para a necessidade de encontrar alguém que realmente me compreendesse.
Foi então que, em um momento inesperado da minha vida, em um lugar completamente diferente daqueles que eu costumava frequentar, tudo começou a mudar. Em um posto do Exército, conheci um rapaz. Primeiro nasceu uma amizade sincera. Depois, daquela amizade, nasceu um relacionamento verdadeiro.
E, desde então, nunca mais nos separamos. Pelo contrário, construímos uma história juntos, baseada no respeito, na parceria e no amor, chegando até a fazer uma união estável.
Como em qualquer relacionamento, tivemos diferenças, aprendizados e desafios, mas sempre prevaleceu o carinho, a compreensão e a vontade de permanecer juntos.
Ao longo dos anos, fomos construindo uma relação sólida, baseada na confiança e no companheirismo. Aprendemos que o amor verdadeiro não se sustenta apenas nos momentos bons, mas principalmente na capacidade de caminhar juntos mesmo diante das tempestades da vida.
Nossa união não nasceu apenas da paixão, mas também da amizade, do cuidado diário e da admiração mútua. Criamos uma família do nosso jeito, com afeto, respeito e dignidade. E isso sempre teve muito mais valor do que qualquer julgamento vindo de pessoas que nunca conheceram a nossa história.
Hoje, olhando para trás, vejo o quanto foi importante não desistirmos um do outro. Em uma época em que muitos ainda escondiam seus sentimentos por medo do preconceito, nós tivemos coragem de viver o nosso amor de forma verdadeira, mesmo com todas as dificuldades impostas pela sociedade.
O tempo me ensinou que amar alguém nunca deveria ser motivo de vergonha. Pelo contrário, o amor é uma das maiores forças que existem na vida humana. E foi exatamente esse amor que nos manteve unidos durante todos esses anos.
Nosso relacionamento não foi construído apenas nos momentos felizes. Como qualquer casal, também enfrentamos dificuldades, desafios e fases complicadas. Houo momentos de insegurança, dias de preocupação e situações em que a vida parecia pesada demais. Mas, mesmo diante das dificuldades, nunca deixamos de caminhar lado a lado.
Aprendi que o verdadeiro companheirismo nasce justamente nos dias mais difíceis. É fácil permanecer ao lado de alguém quando tudo está bem. Difícil é permanecer quando chegam os problemas, as incertezas e o medo. E foi nessas horas que percebi o valor da pessoa que estava comigo.
Durante muitos anos, escondi meus sentimentos por medo do julgamento das pessoas. Vivi numa época em que ser diferente era motivo de preconceito, silêncio e sofrimento. Muitas vezes, precisei fingir ser alguém que eu não era apenas para ser aceito pela sociedade. Mas chega um momento em que a verdade dentro da gente fala mais alto do que qualquer medo.
Com o passar do tempo, compreendi que ninguém pode viver plenamente carregando máscaras o tempo inteiro. A liberdade de ser quem somos é um direito que pertence a todos os seres humanos. Não importa a orientação sexual, a cor da pele, a religião ou a condição social. Todo ser humano merece respeito, dignidade e o direito de amar.
Hoje olho para trás e vejo o quanto caminhei até chegar aqui. Vejo o menino tímido do sertão, cheio de dúvidas e medos, tentando entender os próprios sentimentos em silêncio. E vejo também o homem que me tornei: alguém que aprendeu a aceitar sua própria verdade sem vergonha e sem culpa.
Talvez a vida tenha sido dura em muitos momentos, mas também me ensinou grandes lições. Aprendi que o amor verdadeiro não destrói ninguém. O preconceito, sim, machuca, afasta e causa sofrimento. Já o amor constrói, fortalece e dá sentido à vida.
E, apesar de tudo o que enfrentei, continuo acreditando no amor, na honestidade dos sentimentos e na importância de viver com verdade no coração. Porque, no final das contas, não existe felicidade maior do que poder olhar para si mesmo e dizer com paz: eu sou exatamente quem deveria ser.
Ademi Gomes
Enviado por Ademi Gomes em 26/05/2026


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